Quando falamos em circuitos internos, estamos nos referindo a uma estrutura psíquica que vai se formando desde muito cedo, à medida que o ser humano entra em contato com a realidade. Ninguém nasce com uma leitura pronta do mundo. Essa leitura vai sendo construída no encontro com aquilo que se vive, com aquilo que se sente e, sobretudo, com aquilo que falta, fere ou desorganiza.
A realidade com a qual o sujeito se depara não é totalmente previsível, nem personalizada em função de suas necessidades. Ela é impessoal, incerta e, muitas vezes, frustrante. Ao longo do desenvolvimento, a pessoa vive acontecimentos extraordinários, isto é, experiências que rompem uma certa continuidade esperada e produzem impacto interno. Esses acontecimentos podem ter naturezas diferentes. Podem vir do ambiente, das relações, das perdas, das rejeições, das ameaças, mas também podem surgir da forma como certas vivências são percebidas e registradas internamente.
Esse ponto é decisivo: o ser humano não faz contato direto com a realidade tal como ela é. Ele interpreta a realidade. Entre o mundo e a experiência subjetiva, existe sempre uma leitura, uma representação, uma construção de sentido. E essa construção não acontece de forma neutra. Ela vai sendo moldada à medida que a pessoa se desenvolve, especialmente em torno de necessidades emocionais básicas, como valor, apego seguro, segurança e atenção ou afeto.
Quando essas necessidades sofrem frustração de modo marcante, começa a se formar uma organização interna. É isso que podemos chamar, em termos gerais, de circuito. O circuito não é apenas uma lembrança do passado, nem apenas uma crença isolada. Ele é uma estrutura viva de interpretação, uma malha interna feita de registros, significados, conclusões, expectativas, fantasias e modos de reagir. Em outras palavras, o circuito vai se tornando a própria realidade interna do sujeito.
A partir dele, a pessoa passa a perceber o mundo, a interpretar os acontecimentos, a se relacionar com os outros e consigo mesma. Ela ama, teme, espera, evita, reage e escolhe a partir desse circuito. Muitas vezes, ela nem percebe que está vivendo orientada por essa estrutura. Apenas sente que a vida parece sempre reconduzi-la aos mesmos impasses, às mesmas dores e aos mesmos modos de funcionamento.
É por isso que o circuito pode ser entendido como algo que possui camadas, voltas internas, dobras e circunvoluções. Ele não é simples. Ele vai se tornando mais complexo conforme novas experiências vão se conectando às antigas. E, com o tempo, o sujeito pode acabar vivendo quase inteiramente dentro dessa lógica interna, como se ela fosse a própria realidade.
Ainda assim, isso não significa que a pessoa esteja condenada a enxergar o mundo apenas por esse filtro. Em maior ou menor medida, o ser humano pode criar intervalos. O intervalo é aquele momento em que a pessoa consegue, ainda que brevemente, se afastar do automatismo do circuito e perceber algo para além dele. É como uma abertura, uma fresta, uma suspensão da leitura habitual. Nesse momento, ela se aproxima um pouco mais da realidade externa, ou pelo menos reduz a fusão completa com a sua realidade interna.
Só que nem todos os circuitos têm o mesmo grau de permeabilidade. Há pessoas com circuitos mais flexíveis, mais porosos, que permitem mais intervalos. Nesses casos, o sujeito consegue rever interpretações, reconsiderar experiências e perceber que aquilo que sente ou pensa nem sempre corresponde exatamente ao real. Por outro lado, há circuitos muito fechados, muito herméticos, que dificultam essa abertura. Quanto mais rígido o circuito, maior tende a ser a rigidez da personalidade, e maior também tende a ser o sofrimento.
Isso acontece porque o sofrimento aumenta à medida que cresce o hiato entre a realidade interna e a realidade externa. A realidade interna, quando muito dominada pelo circuito, pode se afastar bastante do que de fato está acontecendo fora. E quanto maior essa distância, maiores tendem a ser as distorções, as fantasias e os simulacros existenciais. A pessoa começa, então, a viver dentro de simulações mentais que organizam sua experiência de forma repetitiva. Sem perceber, ela constrói um script de vida e passa a segui-lo como se fosse inevitável.
É como alguém que tenta se orientar com um GPS desatualizado. O mundo mudou, a estrada mudou, as possibilidades mudaram, mas a leitura interna continua antiga. O sujeito insiste em responder ao presente com mapas emocionais construídos em outras circunstâncias. E é justamente aí que o sofrimento se mantém: não apenas por causa do que aconteceu, mas porque aquilo que aconteceu continua organizando, de forma silenciosa, a leitura atual da realidade.
Nesse sentido, o objetivo da Clínica do Paradoxo não é simplesmente apagar o circuito, nem imaginar que seja possível alcançar uma percepção absolutamente pura e exata do real. Nenhum ser humano tem acesso total à realidade tal como ela é. Sempre haverá interpretação. Sempre haverá mediação subjetiva. O ponto central, então, não é eliminar a subjetividade, mas diminuir a rigidez do circuito.
Clinicamente, o trabalho consiste em tornar esse circuito menos fechado, menos automático, menos soberano. Quanto mais o circuito perde rigidez, mais o sujeito pode produzir intervalos. E quanto mais intervalos ele consegue criar, mais pode se aproximar da realidade externa com menos distorção, menos fantasia e menos aprisionamento em roteiros antigos. Em outras palavras, a clínica busca reduzir a distância entre o mundo que a pessoa vive por dentro e o mundo que efetivamente se apresenta fora dela.
É nessa redução do hiato que o sofrimento pode começar a diminuir. Não porque a realidade se torne perfeita, previsível ou totalmente ajustada às necessidades do sujeito, mas porque ele deixa de estar inteiramente submetido ao próprio circuito. E, ao deixar de viver apenas a partir desse script interno, ganha mais liberdade para perceber, sentir, pensar e agir de outra maneira.
